A psicologia do BDSM percorreu um longo caminho: do r├│tulo de patologia, no in├¡cio do s├®culo XX, ao reconhecimento atual como express├úo leg├¡tima da sexualidade adulta. O que mudou? Basicamente, a ci├¬ncia come├ºou a estudar praticantes reais ÔÇö e os dados contrariaram quase tudo o que o senso comum supunha. Neste artigo, voc├¬ confere os principais achados, com as fontes originais, e testa seus conhecimentos no jogo “mito ou ci├¬ncia”.
Antes de mergulhar nos estudos, uma observação: este texto complementa o nosso guia completo de BDSM , que explica os fundamentos da prática.
De “parafilia” a lazer recreativo: a virada cient├¡fica
Durante d├®cadas, o sadomasoquismo figurou nos manuais diagn├│sticos como transtorno. No entanto, as classifica├º├Áes modernas mudaram: tanto o DSM-5 quanto a CID-11 deixaram de tratar pr├íticas BDSM consensuais entre adultos como patologia. O diagn├│stico hoje se reserva a situa├º├Áes que envolvem sofrimento cl├¡nico significativo ou pessoas sem consentimento.
Essa virada n├úo foi ideol├│gica, mas emp├¡rica. Ou seja, foi sustentada por estudos com amostras grandes, grupos controle e instrumentos validados ÔÇö como os que veremos a seguir.
O estudo de Wismeijer e van Assen: 1.336 participantes
O estudo mais citado da área foi publicado no The Journal of Sexual Medicine e comparou 902 praticantes de BDSM com 434 pessoas do grupo controle, usando instrumentos clássicos: o inventário de personalidade Big Five (NEO-FFI), questionários de estilo de apego, sensibilidade à rejeição e o índice de bem-estar da OMS (WHO-5).
Os resultados surpreenderam at├® os pesquisadores. Em compara├º├úo com o grupo controle, os praticantes de BDSM apresentaram:
- Menos neuroticismo ÔÇö menor tend├¬ncia a instabilidade emocional;
- Mais extroversão e mais abertura a novas experiências ;
- Mais conscienciosidade ÔÇö organiza├º├úo e responsabilidade;
- Menor sensibilidade à rejeição ;
- Maior bem-estar subjetivo ;
- Por outro lado, menos agradabilidade ÔÇö ligeiramente menos preocupados em agradar os outros.
A conclus├úo dos autores ├® direta: o BDSM pode ser entendido como um lazer recreativo , e n├úo como express├úo de processos psicopatol├│gicos (Wismeijer & van Assen, 2013). Curiosamente, os escores mais favor├íveis apareceram entre praticantes de papel dominante, seguidos pelos submissos ÔÇö com o grupo controle atr├ís de ambos.
Função sexual: o estudo controlado de Cesur e Sancak
E o desempenho sexual, sofre com a prática? Um estudo controlado publicado em 2024 nos Archives of Neuropsychiatry comparou 141 praticantes (65 mulheres, 76 homens) com 167 não praticantes, usando a Escala de Experiência Sexual do Arizona (ASEX).
No agregado, n├úo houve diferen├ºa significativa entre os grupos. Contudo, ao separar por g├¬nero, surgiu um dado interessante: as mulheres praticantes apresentaram escores m├®dios melhores de fun├º├úo sexual do que as do grupo controle, enquanto nos homens a rela├º├úo se inverteu levemente. Assim, os autores sugerem que o g├¬nero pode ser um fator relevante na fun├º├úo sexual de praticantes cisg├¬nero ÔÇö e refor├ºam a necessidade de reduzir o estigma sobre essa minoria sexual (Cesur & Sancak, 2024).
Por que o BDSM pode fazer bem?
As hip├│teses levantadas pela literatura ajudam a entender os resultados. Em primeiro lugar, praticar BDSM exige autoconhecimento: ├® preciso nomear desejos e limites com precis├úo ÔÇö uma habilidade associada a maior bem-estar. Al├®m disso, a negocia├º├úo constante treina comunica├º├úo ├¡ntima de alto n├¡vel, como mostramos no guia sobre consentimento no BDSM .
H├í ainda o componente fisiol├│gico. Cenas intensas alteram o estado de consci├¬ncia dos envolvidos ÔÇö fen├┤meno que praticantes chamam de subspace ÔÇö combinando endorfinas, adrenalina e foco profundo, num mecanismo compar├ível ao “flow” de esportes radicais. Em seguida, o ritual de aftercare consolida v├¡nculo e regula├º├úo emocional. Ali├ís, os benef├¡cios do prazer para a sa├║de n├úo s├úo exclusividade do kink: nossa entrevista com a sex├│loga Jennifer Miatti explora o tema em outras pr├íticas.
Jogo: mito ou ciência?
Chegou a hora de testar o que você aprendeu. Classifique cada afirmação como mito ou ciência e confira a explicação com a fonte.
O que isso muda na prática?
Primeiramente, derruba a culpa. Se voc├¬ sente curiosidade ou desejo por din├ómicas de poder e sensa├º├úo, os dados indicam que isso n├úo diz nada de negativo sobre a sua sa├║de mental. Pelo contr├írio: o perfil m├®dio do praticante estudado ├® de algu├®m comunicativo, aberto e consciente de si.
Em segundo lugar, muda a conversa com profissionais de sa├║de. Um praticante n├úo precisa “ser tratado” por seu interesse; precisa, como qualquer pessoa, de acolhimento sem estigma. Os pr├│prios autores do estudo de 2024 destacam a necessidade de aumentar a consci├¬ncia sobre essa minoria sexual entre cl├¡nicos.
Por fim, refor├ºa o valor da educa├º├úo sexual. Quem estuda pratica melhor e com mais seguran├ºa ÔÇö n├úo por acaso, ├® o que mostramos em por que pessoas que estudam sexo transam melhor . Se quiser dar o pr├│ximo passo, o nosso guia de pr├íticas para iniciantes traduz a teoria em primeiros passos concretos.
Referências científicas
- Wismeijer, A. A. J., & van Assen, M. A. L. M. (2013). Psychological Characteristics of BDSM Practitioners. The Journal of Sexual Medicine, 10 (8), 1943ÔÇô1952. https://doi.org/10.1111/jsm.12192
- Cesur, E., & Sancak, B. (2024). Evaluation of Sexual Behavior and Sexual Functions of BDSM Practitioners: A Controlled Study. Archives of Neuropsychiatry, 61 (2), 148ÔÇô153. https://doi.org/10.29399/npa.28527
- Tarleton, H. L., Mackenzie, T., & Sagarin, B. J. (2024). Consent Norms in the BDSM Community: Strong But Not Inflexible. Archives of Sexual Behavior, 54 , 549ÔÇô559. https://doi.org/10.1007/s10508-024-03038-6
